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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Artigo: Power Point com Carteirinha

Prezados colegas, mais uma vez li um artigo que julguei importante compartilhar com vocês:


Artigo publicado na Revista Veja - por Cláudio de Moura Castro


Se Jesus usasse PowerPoint, não teria discípulos. Não se contam histórias emocionantes com ele.
http://www.cristovam.org.br/portal2/index.php?option=com_content&view=article&id=3113:os-meninos-lobo-claudio-de-moura-castro-872009&catid=21&Itemid=100060




PowerPoint era o invento que faltava. Permite projetar na parede o que antes era colocado em garranchos escritos no quadro-negro. Fim do pó de giz. Fim da perda de tempo esperan do o professor escrever. Viva o império das cores, dos desenhos elegantes, dos sons, dos hipertextos (com YouTube e animações). Fim das falhas de me mória, pois, uma vez benfeito, dura para sempre. Mas, se necessário, corrigimos em segundos. Para a sucata o retroprojetor, que precisava de ajudante pa ra passar seus acetatos caros, que não aceitavam cor reções, que caíam no chão e se misturavam. Só que, na prática, costuma ser um desastre. Cruzes! Lá vem umPowerPoint chatíssimo! Mas no escurinho, inde cisa entre ouvir e ler, a prateia cochila. Aliás, está proibido em cada vez mais empresas e no Exército americano falar-se de "morte por PowerPoint". Os erros se repetem, começando com o congestiona mento visual. Cores demais, borboletas, plin-plins, acordes dramáticos, dese nhos de mau gosto, pleto ra de caracteres tipográfi cos conflitantes, informa ções periféricas à aula, logotipos e outros balangandãs. Depois vem o ex cesso de informações e de slides, sobrecarregados com textos intermináveis. Culmina com o erro fatal: o texto lido! Como lemos cinco vezes mais rápido do que o professor fala, passamos à sua frente. Ou seja, o pobre professor levou para a aula um concor rente que tomou a sua cena, pois já lemos o texto e não escutamos mais o que ele diz.
Há uma regra clássica: se alguém que não assis tiu à aula recebe o PowerPoint e o entende, está er rado por excesso. Os slides terão arruinado a aula, arrancando-a do professor e deixando desgovernada a atenção da plateia, Aliás, se é para ler, o que faz lá o conferencista? O texto dos slides deve ser apenas um recurso mnemônico, para fixar os conceitos men cionados e para criar a arquitetura mental das princi pais ideias. Que fique claro: o PowerPoint não subs titui nem o professor nem as leituras. O que ele subs tirui é o quadro-negro! Ele é um resumo e, bem sabe mos; não se aprende em resumos. Serve para fixar na memória as grandes ideias. Para aprender, precisa mos dos exemplos e dos detalhes.
PowerPoint é maravilhoso, se for bem usado. Visualmente, precisa ser de extrema simplicidade. Se a figura não vale mil palavras, lixo com ela. Já se disse, quem vê Steve Jobs e Bill Gates usá-lo apren de tudo de que precisa. Imitemos o supremo despoja mento de Jobs e seremos bem-sucedidos. Imitemos Gates e afundaremos na barafunda visual.
Se Jesus usasse PowerPoint, não teria discípulos, pois histórias, parábolas, contos e narrativas são enre dos na contramão das listas mostradas nos slides. Não se contam histórias emocionantes com ele. É impos sível narrar uma aventura comPowerPoint (vá lá pro jetar o mapa). A sua lógica é a enumeração, e nem tudo pode ser transformado em uma lista. Para dedu zir um teorema, mostrar uma lei da física ou fazer conexões lógicas, precisamos recorrer a gráficos ou a outra lógica de apresentação, fugindo dos "marcado res" (bullets) enfiados goela abaixo dos usuários.
Para quem quer encontrar o bom caminho do PowerPoint, o livro Presentation Zen é a redenção. O autor nos lembra que nosso cérebro tem um hemisfério es querdo, que cuida da razão, e um di reito, encarregado das emoções, das evocações. Uma boa aula ativa na plateia os dois hemisférios: inspira o direito e explica ao esquerdo. E com qual hemisfério o PowerPoint vai se comunicar? Se falar ao esquerdo, da razão, vai competir com as palavras do professor. E o desastre anuncia do. Nele, as poucas palavras são para reter na memória as idéias ouvidas, não para lançá-Ias. Portanto, sua missão deve ser evocar, inspirar, infiltrar sentimentos. Daí a impor­tância da escolha judiciosa das imagens. Melhor que sejam fotografias (abundantes no Google Images), e que se fuja, como o diabo da cruz, da Clip-art e dos desenhos humorísticos.
Diante disso tudo, só resta uma solução: exigir carteira de habilitação para usarPowerPoint. Vamos à autoescola e tiramos carteira, para reduzir o risco de atropelar uma velhinha na primeira esquina. En tão, carteira para usar PowerPoint, para evitar que barbeiragens ponham a perder o potencial educativo de um recurso tão extraordinário, mas que pode ser usado também para confundir a plateia e mentir.

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