A tecnologia deve ser o meio, não o fim das atividades que
propomos aos alunos. A inovação não está no fato de levarmos um blog,
um vídeo ou outros recursos para a sala de aula, mas no uso que fazemos
deles.
Na semana passada tivemos uma
rica
discussão sobre o fato de que não é a tecnologia que inova ou beneficia
a aprendizagem por conta própria, mas sim o uso que dela fazemos.
Em muitos momentos culpamos a tecnologia por ser complicada ou por
não atender às nossas necessidades, mas é necessário enxergar que ela em
si não pode ser a heroína ou a vilã da história. O papel do professor
como mediador da aprendizagem é o mais relevante; é sobre ele que
devemos refletir o tempo todo, inclusive para decidir quando usar ou não
um determinado recurso.Há que se reconhecer como um grande desafio o
próprio uso das tecnologias na educação: basta lembrar que existem
escolas que, embora ofereçam inúmeros recursos aos alunos, ainda
permanecem com laboratórios de informática fechados e equipamentos
guardados.
O uso pelo uso da tecnologia pouco nos interessa: sem refletirmos a
respeito da relevância de um ou outro recurso para o trabalho,
continuaremos engatinhando na questão mais relevante: a melhoria da
aprendizagem. Por essa razão, gostaria de listar algumas situações bem
comuns com as quais já me deparei e propor uma nova reflexão a respeito.
Antes, ressalto ainda que muitas vezes trabalhamos demais e rendemos de
menos quando optamos por uma prática focada apenas no esforço do
professor e não na superação pela qual os alunos devem passar para que
aprendam mais e se sintam desafiados. Vamos às análises:
- Preparar aulas para os alunos utilizando o computador
O preparo de “atividades” – seja no Excel, Power Point, ou mesmo em aplicativos específicos como
JClic
– toma um certo tempo do professor e, dependendo de como isso for
feito, os alunos acabam resolvendo rapidamente a atividade e encontrando
poucos desafios. Eu mesma já fiquei encantada com algumas produções
minhas que envolviam software de autoria, até perceber que dependendo da
proposta gastamos muito tempo para pouco resultado.
A grande questão é que
os alunos precisam ser mais desafiados e todas estas tecnologias são
muito simples para eles. Se o objetivo é que aprendam algo novo ou
sistematizem algum conhecimento, por que criarmos apenas joguinhos se
eles mesmos poderiam desenvolvê-los utilizando todos estes programas? Os
alunos apresentam muita facilidade no uso das TIC, porém raramente são
colocados em situações em que precisam criar perguntas e planejar
respostas adequadas, o que é bem mais desafiador do que simplesmente
resolver uma atividade de perguntas e respostas. Que tal propor que
criem aulas interativas utilizando alguns softwares adequados e as
troquem com os outros colegas?
Todos os anos participo como jurada de um
concurso promovido pelo Visual Class,
software de autoria em que os alunos criam aulas a partir de pesquisas e
compartilham o conteúdo produzido com outros alunos. Com esse software,
eles mesmos contam como aprenderam a utilizar o aplicativo e o que
aprenderam sobre o assunto pesquisado. Em experiências como esta, não é o
professor que se preocupa com a tecnologia e sim os alunos que aliás,
fazem isso muito bem. O papel do professor é justamente de orientador
da aprendizagem, com foco no currículo e em todos os aspectos
pedagógicos necessários para que a produção a ser feita seja coerente
com os objetivos propostos.
- Trabalhar atividades interativas com os alunos
Antes de criar qualquer material, é preciso avaliar o que já existe.
Atualmente temos diversos portais que organizam objetos educacionais e
podem ser utilizados com os alunos. Muitas dessas atividades podem ser
bem interessantes, mas sozinhas geralmente não são suficientes para
garantir as necessidades de aprendizagem propostas pelas diferentes
escolas. Sempre é preciso pensar como ir além do que foi proposto e que
tipo de produção os alunos poderão realizar. Se o aluno apenas resolver
as atividades, logo esquecerá o que foi trabalhado. Alguns portais
disponibilizam planos de aula com o objetivo de ampliar o uso dos
objetos – vale a pena consultá-los, adaptando-os à realidade de cada
turma.
Em alguns momentos, a exploração de uma atividade interativa pode
contribuir como uma sensibilização para um determinado tema ou assunto.
Quem sabe o professor não consegue organizar um trabalho mais
aprofundado em que os alunos possam mais tarde construir animações,
vídeos ou objetos interativos que sejam aproveitados por toda a escola? O
professor
Guilherme Erwin Hartung criou uma metodologia para isso utilizando um software bem bacana desenvolvido pelo MIT , chamado
Scratch. Com este trabalho já foi finalista de dois prêmios (
Microsoft e
Instituto Claro).
- Corrigir textos que serão publicados ou apresentados pelos alunos
Elaborar atividades coletivas em blogs, jornais escolares e
apresentações são uma ótima proposta, porém os processos de orientação
da pesquisa, análise de informações, produção de texto e publicação são
desafiadores para professores e alunos.
Há muitos educadores que preferem levar toda a produção feita pelos
alunos para correção fora da presença deles. Além de bastante trabalhosa
para o professor, a atitude pouco ajuda a turma a aprimorar seu
trabalho. O ideal é realmente valorizar os processos de produção de
texto, orientando-os durante a própria aula e incentivando que um ajude
ao outro. Um
checklist com todos os aspectos que deverão ser
revisados na produção pode ser utilizado, o que fará com que fiquem mais
atentos à própria produção e também à possibilidade de colaborarem com
os demais colegas, aprendendo muito mais.
Se passar um ou outro “erro”, a grande vantagem da web é justamente a
possibilidade de poder corrigi-lo a qualquer momento. Um texto
publicado na internet nunca é perfeito, pois sabemos que sempre poderá
ser modificado, aprimorado… Uma pena é que não guardamos este histórico
como acontece na
Wikipedia,
que tem o grande mérito de deixar registrados online os processos de
aprimoramento dos conteúdos produzidos por diferentes pessoas.
Grande parte dos blogs educativos, por exemplo, apresentam textos de
qualidade surpreendente para a faixa etária da turma envolvida, mas até
que ponto os alunos puderam aprender com a experiência? Que tipo de
trabalho foi feito para que os alunos refletissem sobre o próprio
processo de aprendizagem e buscassem aperfeiçoar suas produções? Quando
são focados no trabalho do professor e não do aluno, esses processos de
correção sobrecarregarem os educadores e pouco ajudam na aprendizagem.
- Propor uso de software ou site que o professor conhece
Geralmente acreditamos que devemos usar com os alunos apenas
softwares ou serviços da web que dominamos tecnicamente, ou que
aprendemos em algum curso. Essa estratégia somente dá certo quando o
recurso realmente é o mais adequado para atender a objetivos já
previstos no currículo e, ao mesmo tempo, é o melhor para atender às
necessidades da turma.
Um exemplo é o uso do blog como plataforma de compartilhamento das
produções dos alunos ou registro dos processos de aprendizagem. Acontece
bastante, porém, de este recurso ser utilizado porque alguém acha que é
“inovador” ou porque o professor aprendeu tecnicamente a criá-lo. Uma
alternativa seria pedir que os alunos pesquisassem e sugerissem outras
formas de compartilhamento das suas produções.
Pode ser que o ideal seja discutir um determinado conteúdo em uma
rede social, ou produzir um blog colaborativo, ou um jornal mural… Pode
mesmo ocorrer de o melhor ser não utilizar nenhuma dessas tecnologias,
pois determinado projeto pode ser mais interessante se houver uma
apresentação para a comunidade encenada em forma de peça teatral ou
apresentação multimídia.
Insisto no entendimento de que a inovação não está no fato de
levarmos um blog, um vídeo, o Scratch ou qualquer outra tecnologia para
a sala de aula, e sim no uso que fazemos desses recursos.
Outro exemplo: durante uma oficina de vídeo que ministrei no
Colégio Visconde de Porto Seguro,
uma professora iniciou a produção de animações a partir de desenhos dos
alunos e de um roteiro de conto colaborativo, também totalmente
produzido por eles. Ora, o vídeo por si só não é inovador, mas envolver
os alunos em todas as etapas da produção, dentro de uma necessidade de
aprendizagem e enriquecendo o trabalho com a produção de uma atividade
de relevância social, é inovador para aquele contexto e para os alunos.
Nesse exemplo, a maior parte do tempo de dedicação do trabalho da
professora foi investido em orientar e provocar os alunos para
produzirem materiais. Imaginem quanto tempo ela gastaria se fosse
escrever o roteiro, produzir as imagens e narrar o vídeo para ensinar
algum conteúdo? Estratégias como estas permitem que o professor tenha
mais foco no trabalho pedagógico e use as tecnologias adequadas no
momento em que mais precisam delas, de acordo com as demandas da aula.
- Não sair da frente da lousa
A lousa tradicionalmente é reconhecida como um instrumento do
professor. Em escolas em que trabalhei anos atrás, bom professor era
aquele capaz de utilizar a lousa “passando bastante conteúdo”. Bom aluno
era o que atendia também a esta expectativa, ou seja, copiava tudo
bonitinho no caderno e prestava atenção.
Em outro extremo, às vezes não percebemos e ficamos muito encantados
com tecnologias que parecem novas, mas não são nem tão novas assim, como
é o caso da lousa digital. Obviamente os recursos que hoje temos nas
lousas digitais são suficientes para gostarmos mais delas do que da
lousa comum, mas não foram suficientes ainda para pararmos de utilizá-la
da mesma forma que era empregado o quadro negro (ainda que eu pense que
mesmo a antiga lousa pudesse ser usada de outra forma, tal como o
mimeógrafo e o episcópio, abordados no artigo anterior).
O que ocorre é que a lousa digital é tão interessante que realmente
poderia ser usada de forma mais interativa. Se os alunos gostam tanto
dela, nós professores poderíamos provocá-los para que interagissem mais
com os seus recursos. Atividades simples como propor desafios, navegar
na web e fazer explicações em público deveriam ser mais utilizadas.
Outro aspecto a ser repensado são os conteúdos digitais expostos na
lousa. A grande maioria é feita pensando na lógica dos computadores em
laboratório de informática (ou mesmo em netbooks). Esta é uma falha
imperdoável, pois para que a aula seja interativa as atividades precisam
propor a resolução de desafios que sejam resolvidos em diferentes
grupos, caso contrário o professor será um mero “passador de conteúdos
digitais”, com a diferença de que ao invés de escrever na lousa vai
apertar apenas os botões de avançar e voltar.
Temos realmente que avaliar o tempo gasto e os resultados efetivos de
algumas atividades pedagógicas que realizamos. Será que estamos
atendendo a objetivos menos importantes do que a aprendizagem dos
alunos? Será que estamos realmente propondo situações desafiadoras à
nossa turma ou meramente reproduzindo o que alguém já fez ou o que dizem
que é “bom fazer”?
Fonte:
http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/quando-realmente-compensa-utilizarmos-as-tecnologias-digitais-na-educacao